| |
Quatro dedos abaixo do umbigo
Percorro todos os caminhos possíveis na esperança de chegar à mim. Quando eu me encontro tudo se torna leve, o assunto jorra como fonte, a conversa paira como passarinho sobre o alimento poesia, teatro, o alimento vida. Tanto que eu queria viver em mim! Mas há você. Há tua voz e tua conversa que me derruba à tua vontade. Onde passeiam meus olhos castanho-azulados? Há teus olhos. Eu fico aqui entre mal vestido e nu a sentir tua boca na minha nuca e as tuas entradas depois de 24. Pelo amor de Deus! 2 horas da tarde em Pequim. Estudo o texto da minha próxima peça de teatro e amargo o sabor que há na boca larga dos atores deste país. Tua vinda seria bem, mas a vida é assim mesmo: dá com uma mão e pede com a outra. Tua forte marca pessoal me tatua, me deixa nua a cara e a coragem; eu te quero aqui, dentro, eu vigio teus passos nos olhos pretíssimos de Oxum, e me maltrata o medo que contrai meu estômago, medo não de te perder, medo de ser mais um. Ainda sou criança, Mãe? E a senhora, sonha até hoje com as bonecas que lhe assombraram a infância? Uma barata me humilha o suficiente para que eu perca a viagem ao ser humano. César, onde foi que você guardou o livro que eu te dei no Natal? Hoje eu estou sensível demais para existir, para estar em público, me expor, discutir a matemática do amor. Mas discuto. As paredes têm ouvidos e querem saber da relação de amor e ódio que eu vivo. Todo amor comporta uma cota de ódio. Foi sempre assim. Desde Adão o homem é o mesmo. Têm horas que a luz se faz luz. Só hoje sem lápis nenhum no olho e o cabelo molhado pude entender o meu infinito finito. Te amo assim. Bata com mais força, com violência até. A porta que você quer que se abra não vai abrir a não ser que você a abra. Portanto, bata com mais força. Como a vida nos maltrata, não é mesmo? É penoso existir. É duro encontrar apoio cultural e financeiro, exceto apoio moral. Calor de fazer vontade de um chuveiro. Eu, na rua da amargura. Você?
"Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios." Água Viva - Clarice Lispector
Escrito por Luis às 06h23
[]
[envie esta mensagem]
|
|