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A primeira hora do dia
Você nada e eu lhe observo do meu pedestal. O teu maiô branco me transmite paz, me transa, confirma que a vida é boa mesmo na sua dor. Existe uma dor maior e não é a minha. Leio João capítulo 24, versículo 24: Deus não desistiu na morte do seu filho. Ele é gente. É Zuzu Angel. Você abandona um pouco a água como faz comigo e me acena feliz, leve. Teu cabelo bagunçado me faz criança de comer um prato cheio da espessa de minha avó. Teu rosto é mulher. Tua boca é homem. Tenho medo de lhe perder, de deixar de ser garoto, do meu cabelo escuro virar prata. Eu, sabendo que você odeia banana prata. Ouço Cora zombar do tempo, mas não abandono meu queixume. Isto é cuidado que vira doença que foi amor. Também o é. Que é ciúme. Penso que sou o que quiseres: golfinho, águia, galinha. Eu só não consigo ser uma única coisa: indiferente. Eu existo na tua vida e exijo. Te dou também o que você quiser. Mato tua fome: cabrito ao vinho, leitão a pururuca, salsichas flambadas. E a sobremesa que você ditar, incluso embaixo da mesa. Você passa por mim, corpo molhado e chacoalha a cabeça, me atinge o rosto. Meu coração atingido há muito tempo, teme perder você, ainda que esteja muito claro que perdi você, como a água perde um pouco de água depois do mergulho de alguém. É tudo mentira esta história de que existe sempre uma pessoa para outra pessoa. Vivemos um rodízio. Salve-nos Rainha, mãe da misericórdia! Minha avó e meu avô, decididamente, nasceram para o retrato pendurado na parede há cinqüenta anos. Os meus pais têm um retrato igual. Eu tenho você e tenho ciúmes da água onde você acabou de mergulhar e nadar. A água tem mais de você do que tenho eu e isso me causa náuseas de água de piscina. Se fores embora, me deixa em qualquer data, amanhã ou depois de amanhã, menos hoje. Menos hoje. Prometa que não me deixará nunca enquanto o dia for hoje. Prometa.
"Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se (...)"
Adélia Prado
Escrito por Luis às 01h12
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