Minha mãe cantava de manhã cedinho:
"Acorda Maria Bonita,
Levanta, vai fazer o café,
Que o dia já vem raiando
E a polícia já está de pé...".
Ela cantava. Um dia parou de cantar:
"Olê, Mulher Rendeira,
Olê mulhé rendá
Tu me ensina a fazer renda,
Que eu te ensino a namorá...".
Tia Liquinha no quarto, terço nas mãos, a boca balbuciando qualquer pai nosso que estais no céu, olhar perdido. Minha mãe na cama de casal, dormindo tranqüilamente à custa de morfina. Meu pai no roçado de milho e algodão das seis às seis, almoçando o tempero de outras e me pagando escola para eu voltar pra casa chorando porque Benedito, mais velho e arengueiro, disse assim que minha mãe ia morrer e eu ia ficar órfão.
- Tia Liquinha, o que é órfão?
Mãinha cantava:
"Se essa rua,
Se essa rua fosse minha,
Eu mandava,
Eu mandava ladrilhar,
Com pedrinhas,
Com pedrinhas de brilhante,
Só pra ver,
Só pra ver meu bem passar...".
Rezei tanto, meu Deus, pedindo a Deus pra minha mãe ficar boa, pra ela não morrer de câncer.
Eu ficava na rede fingindo sono. Via meu pai se balançar na rede de varandas coloridas, os pés com rachões e feridas. Tia Liquinha, a noite toda pra lá e pra cá, com chás, água e comprimidos. Via a noite ir embora, meu pai se levantar com escuro, o galo entoar um canto limpo e a luz do dia me assombrar a vista.
Benedito me chateava:
- Câncer não tem cura, Luisinho. Você vai pra adoção!
- Tia Liquinha, o que é adoção?
Ela cantava:
"A rosa vermelha do meu bem-querer,
A rosa vermelha e branca hei de amar até morrer...".
Quando o pai de Benedito soube que ele me fazia chorar na escola, deu-lhe uma pisa de cipó que lhe ficaram riscas roxas nas canelas para contar a história.
Benedito parou de me aperrear.
Com pouco mais de um mês, nas férias da escola, Benedito apareceu lá em casa com rosas brancas e de roupa preta. Ele sentou do meu lado e me apertou com força.
- Minha avó disse assim que mulher quando morre, vira rosa. Sua mãe vai ser enterrada e vai virar rosa, Luisinho.
Eu tinha seis anos e até hoje quando vejo rosa branca, eu choro de alegria.
Ainda ouço:
"Fui na Espanha buscar o meu chapéu
Azul e branco da cor daquele céu,
Olha palma, palma, palma
Olha pé, pé, pé..."