Luís Antônio
  

Ponto cruz, tricô e crochê

Minha mãe cantava de manhã cedinho:

"Acorda Maria Bonita,

Levanta, vai fazer o café,

Que o dia já vem raiando

E a polícia já está de pé...".

Ela cantava. Um dia parou de cantar:

"Olê, Mulher Rendeira,

Olê mulhé rendá

Tu me ensina a fazer renda,

Que eu te ensino a namorá...".

Tia Liquinha no quarto, terço nas mãos, a boca balbuciando qualquer pai nosso que estais no céu, olhar perdido. Minha mãe na cama de casal, dormindo tranqüilamente à custa de morfina. Meu pai no roçado de milho e algodão das seis às seis, almoçando o tempero de outras e me pagando escola para eu voltar pra casa chorando porque Benedito, mais velho e arengueiro, disse assim que minha mãe ia morrer e eu ia ficar órfão.

- Tia Liquinha, o que é órfão?

Mãinha cantava:

"Se essa rua,

Se essa rua fosse minha,

Eu mandava,

Eu mandava ladrilhar,

Com pedrinhas,

Com pedrinhas de brilhante,

Só pra ver,

Só pra ver meu bem passar...".

Rezei tanto, meu Deus, pedindo a Deus pra minha mãe ficar boa, pra ela não morrer de câncer.

Eu ficava na rede fingindo sono. Via meu pai se balançar na rede de varandas coloridas, os pés com rachões e feridas. Tia Liquinha, a noite toda pra lá e pra cá, com chás, água e comprimidos. Via a noite ir embora, meu pai se levantar com escuro, o galo entoar um canto limpo e a luz do dia me assombrar a vista.

Benedito me chateava:

- Câncer não tem cura, Luisinho. Você vai pra adoção!

- Tia Liquinha, o que é adoção?

Ela cantava:

"A rosa vermelha do meu bem-querer,

A rosa vermelha e branca hei de amar até morrer...".

Quando o pai de Benedito soube que ele me fazia chorar na escola, deu-lhe uma pisa de cipó que lhe ficaram riscas roxas nas canelas para contar a história.

Benedito parou de me aperrear.

Com pouco mais de um mês, nas férias da escola, Benedito apareceu lá em casa com rosas brancas e de roupa preta. Ele sentou do meu lado e me apertou com força.

- Minha avó disse assim que mulher quando morre, vira rosa. Sua mãe vai ser enterrada e vai virar rosa, Luisinho.

Eu tinha seis anos e até hoje quando vejo rosa branca, eu choro de alegria.

Ainda ouço:

"Fui na Espanha buscar o meu chapéu

Azul e branco da cor daquele céu,

Olha palma, palma, palma

Olha pé, pé, pé..."



Escrito por Luis às 01h18
[] [envie esta mensagem]


 
  

Disco reúne Bethânia e Omara em show inédito

Gravado em janeiro de 2007, nos estúdios da gravadora Biscoito Fino, no Rio de Janeiro (RJ), o disco dividido por Maria Bethânia com a cubana Omara Portuondo será lançado juntamente com um show inédito que reunirá as duas cantoras em um mesmo palco. A estréia será no Canecão (RJ), em 7 de março. Concluído em clima de sigilo total, o CD conta na produção com nomes como Moogie Canazio, Jaime Alem e o violonista Swami Jr. O repertório inclui textos e músicas dos anos 50, do Brasil e de Cuba. Sairá em breve.

http://blogdomauroferreira.blogspot.com/
Notas Musicais - Mauro Ferreira



Escrito por Luis às 21h13
[] [envie esta mensagem]


 
  

Uma valsa pra dançar

Américo, eu te amo, Américo. Você tem uma loja de tecidos e uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Américo, tem tudo pra me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos. Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar a conversa: "leva também um metro de amorim." Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro, não tens? Uma coleção de marcas de cigarro e o retrato da sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida pra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem, mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.

Você passa e eu digo: boa-tarde, Américo.

(Solte os cachorros - Adélia Prado)



Escrito por Luis às 02h53
[] [envie esta mensagem]


 
  [ ver mensagens anteriores ]  
 
 
HISTÓRICO
 20/04/2008 a 26/04/2008
 06/04/2008 a 12/04/2008
 30/03/2008 a 05/04/2008
 02/03/2008 a 08/03/2008
 10/02/2008 a 16/02/2008
 27/01/2008 a 02/02/2008
 20/01/2008 a 26/01/2008
 13/01/2008 a 19/01/2008
 06/01/2008 a 12/01/2008
 23/12/2007 a 29/12/2007
 09/12/2007 a 15/12/2007
 02/12/2007 a 08/12/2007
 25/11/2007 a 01/12/2007
 18/11/2007 a 24/11/2007
 11/11/2007 a 17/11/2007
 04/11/2007 a 10/11/2007
 21/10/2007 a 27/10/2007
 14/10/2007 a 20/10/2007
 30/09/2007 a 06/10/2007
 09/09/2007 a 15/09/2007
 02/09/2007 a 08/09/2007
 19/08/2007 a 25/08/2007
 05/08/2007 a 11/08/2007
 01/07/2007 a 07/07/2007
 10/06/2007 a 16/06/2007
 27/05/2007 a 02/06/2007
 06/05/2007 a 12/05/2007
 29/04/2007 a 05/05/2007
 15/04/2007 a 21/04/2007
 08/04/2007 a 14/04/2007
 18/03/2007 a 24/03/2007
 04/02/2007 a 10/02/2007
 21/01/2007 a 27/01/2007
 14/01/2007 a 20/01/2007
 07/01/2007 a 13/01/2007
 31/12/2006 a 06/01/2007
 24/12/2006 a 30/12/2006
 17/12/2006 a 23/12/2006



OUTROS SITES
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


VOTAÇÃO
 Dê uma nota para meu blog!