João, eu não sinto sua falta. Mas os pães que você fazia... são... os pães que você fazia. Os melhores. De manhã, quando acordo e preparo meu café, desejo pão. Bebo leite, coalhada, suco de laranja. O trabalho não muda uma vírgula faz sete anos. À tarde, quando a tarde se vai e eu volto para casa, me acompanha a solidão dos meus pensamentos. A vida dos poetas é esta; isto me consola. Deus determinou: uma parte dos homens rica, uma parte dos homens pobre e os demais a vida inteira como exercício de raciocínio sobre ambas as partes. Quem ama é rico? João, pouca coisa ou quase nada, arrisco dizer nada, nada ficou para ser dito. Mas os pães que você fazia... são... os pães que você fazia. O teu alimento me botava de pé assim que o dia tinha início, e quando o dia terminava, eu me botava no chão para o teu alimento. João... A nossa cama tinha lençóis que guardavam teu cheiro, ainda que você dissesse que sentia meu perfume ali. Quem não perdoa é pobre? Um corpo que eu nunca vi e nem quis e nem quereria e nem quero, sobre aqueles lençóis e o teu corpo que eu julgava conhecer tão bem, tão meu, teu corpo que eu sempre quis, sobre aquele corpo que eu nunca vi. O baile das ondas sobre nossos lençóis. Aliás, sobre aqueles panos. Trapos velhos para os quais você devia confidenciar, ruminar desejos de sua pele branca e rosa. Fortuna é amar e ser amado. Você é digno de pena ou perdão? Eu não desejo nada. Não desejo teu corpo sobre aquele corpo até agora nem desejo corpos separados. Tenho a sensação de que você não está nada bem. Condenado está quem não absolve teu próximo da culpa. Prefiro não pensar, não julgar, não sentir. Mas sentir eu sinto. O meu café é bom. Aprendi dia desses uma receita bem simples: biscoitos de água e sal. Posso preparar quinhentos biscoitos numa única tarde e presentear pessoas que estão de regime ou até mesmo vender a preço de custo. Como tapioca, bolo de cenoura, pão francês. Mas João, os pães que você fazia... são... os pães que você fazia!