Luís Antônio
  

Sabonete esfoliante suave com leite de cabra, vitaminas e rosas brancas  

 


1.


O carro pára em frente ao prédio onde moro. Buzina. Minha mãe corre à janela e grita para mim: É ele! Penteio o cabelo desajeitadamente e perfumo o pescoço e os pulsos com pressa, abro a porta. Minha mãe me detém o passo e corre para me dar um beijo de boa sorte e juízo, ajeita minha camisa e arruma meu cabelo com as mãos. Paulinho está fora do carro, em pé, mexendo no celular. Me vê e sorri, abre a porta do carro e diz: Vamos?

Ele fala sobre um filme que viu antes de sair de casa, à tarde. Um filme em preto e branco, de um diretor famoso, lindo o filme. Mas não lembra direito o nome. Força a lembrança, conta um pouco da história, irrita-se, larga o volante e aperta a cabeça. Me olha e ri, explica-se: Detesto esquecer!

Paulinho limpa as sobrancelhas, tem as unhas muito aparadas e um corte de cabelo moderno. Usa sandálias, camiseta branca e calças muito largas. Tem os dentes mais brancos que já vi. Fala com ansiedade e às vezes faz pausas para lembrar nomes. Diz que tem uma péssima memória e que a culpa é do café.

Pergunta pela minha mãe e elogia minha camisa.

Persona! - comemora. Lembrei: Persona!



2.


Pode, por favor, não fumar!

Ele pede quase triste, cauteloso, mas incisivo. Eu apago o cigarro e sorrio. Paulinho pede uma massa que sua avó fazia muito bem e me consulta sobre o vinho. De repente, enquanto o garçom ainda anota, ele me olha ansioso: Menino, você viu o jogo do Vasco ontem?

Depois da segunda garfada, Paulinho enche os olhos d'água e diz: Lembro da minha avó e sinto vontade de chorar. Fala dela, seu nome de flor, o perfume, os pratos que servia nos almoços de domingo e a fé em Deus.

Ele fala muito mal do presidente da República e da programação da TV aberta. Conta sobre um show que assistiu seis meses atrás, de uma cantora negra, voz rouca e grave, muito famosa.

- Elza Soares?

Ele diz que não. Brasileira? Sim, brasileira. Mas não lembra o nome, e se aborrece.

Ele pede e eu lhe conto sobre a peça de teatro que estou ensaiando, texto meu, diretor muito amigo meu. Escuta sem pestanejar, abre o sorriso vez por outra.

- Café?



3.


- Eu pago.

- Não! Eu pago.

- Paulinho, por favor...

- Não! Guarde a carteira.

- Eu pago.

- Não! Cara, você é meu convidado.


Termina seu café e pede outro. Ainda não acabei de tomar o meu. Ele quer saber sobre a estréia da peça e o teatro. Começo a falar, ele me interrompe, estende o braço e limpa meu rosto de alguma sujeirinha. Pede desculpas, eu agradeço, volto ao assunto da peça.

- Tem chocolate?

O garçom responde que vai providenciar. Paulinho ergue o olhar e diz que me admira, que não consegue ficar sozinho, que às vezes tem vontade de bater na mãe dele, que não tem tanto amor assim pela profissão de ator de televisão, que o dinheiro é bom, que o dinheiro o tenta e ele acaba permanecendo nesta profissão. Confessa que já pensou em se matar.



4.


Ele dirige e fala rápido. Pergunta o que achei da Sônia Braga no filme do Jabor. Diz que já a viu pessoalmente. Que tem medo de envelhecer.

- Escreve um roteiro pra mim!

Prometo que vou escrever. Ele dá uma risadinha e diz que está falando sério. Respondo que eu também estou falando sério.

Paulinho sugere uma boate ao invés de um barzinho. Eu discordo. Ele me atende.

Acendo um cigarro e ele ri: Aqui, tudo bem! Ri mais e mais alto.

Peço um uísque. Ele pensa minutos inteiros e se decide por refrigerante: Tenho um texto para decorar amanhã!

Eu estou meio tonto e começo a falar sem pausa.

- Todo homem faz sexo sem amor!

Paulinho me olha atento, o preto dos seus olhos ilumina. Ele discorda, mas me deixa falar:

- Eu só faço amor!



5.


Ele segura o meu rosto e diz - avalia, faz análise, contempla, concentra-se - Você tem um rosto bonito! Fala que está apaixonado por fotografia e me convida para uma sessão de fotos no ateliê que montou no seu apartamento. Aceito, prontamente.

- Pra mim é complicado!

Paulinho desabafa sobre teatro. Diz que não tem a menor vontade de fazer teatro, fez umas pecinhas sem muita importância tempos atrás e não gosta mesmo. Sonha conhecer Pequim e Hong-Kong e pretende estudar cinema.

Seu sonho mesmo é ser um ator de cinema, um ator de muitos filmes, de muitos diretores. Como Al Pacino e Sean Penn.

- Tem visto Malu?

Malu é uma amiga em comum, que nos apresentou seis semanas atrás e nós trocamos telefone e ficamos nos falando. Paulinho mora no Rio de Janeiro e eu em São Paulo. Nós nos conhecemos no aniversário de Malu, aqui em São Paulo. Paulinho e eu conversamos meia hora e ficamos muito amigos. Ele disse que quando voltasse para cá, sairimos para jantar.

- Vamos embora?



6.


Ele pára o carro em frente ao hotel em que está hospedado.

- Tenho um negócio para te mostrar!



Escrito por Luis às 11h35
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