Luís Antônio
  

  Jeremias: 1; 6-8.

Desci a avenida Rebouças - de ônibus - escutando Maricotinha e observando as poucas árvores que existem nesta cidade. Pensei em João Pessoa. Sentei o mais perto possível do motorista, num assento reservado a idosos e deficientes físicos. O ônibus estava quase vazio. Eu adoro sentar perto do motorista porque me sinto motorista também, me dá um certo frio na barriga; e posso olhar a pista que chega às minhas vistas numa invasão frontal. Caminhei por quase dez minutos pela Oscar Freire, tomando coca-cola e pensando em Tiago que me chamou para fumar um baseado qualquer noite destas. Enfim, cheguei à exposição "Dina Sfat - Retratos da Atriz" e escutei a voz de Dina logo que entrei. Havia um telão onde estava sendo exibida uma entrevista que ela deu poucos anos antes de morrer. Senti um nó na garganta e uma leve falta de ar. Saí caminhando, fui ver os retratos. E chorei, pelo menos, umas três vezes: Dina segurando Grande Otelo no colo, fotografada com Paulo José de costas, no palco como Hedda Gabler. E em alguns retratos do seu rosto de olhos tão expressivos, calei, inclusive o choro. Voltei para o telão e vi as duas entrevistas (eram duas!) inteiras. Bebi água gelada, tomei café, comi bolo de banana (tudo muito caro, tudo muito bom) e conversei (em silêncio) com Dina - que falava tão bem, sorria tão lindo e representava como as deusas. Tenho em casa seu livro "Palmas pra que te quero" e a homenagem da coleção "Aplauso". Leio sempre, seu diário. E dou muita risada. Deixei a exposição bem satisfeito e fui para o metrô que fica ao lado e eu não sabia. Uma criança suja de olhos verdes me estendeu a mão e disse que estava com muita fome. Eu não parei o passo e me esqueci daquela cena em menos de dois minutos e agora lembro com certa reflexão. O celular tocou e eu não atendi; Tiago. Martelava na minha cabeça com batidas muito suaves um clip da MTV - Matt Damon cantando My funny Valentine. Fiquei feliz porque o metrô ia me deixar em casa bem rápido, ao contrário de uma viagem de ônibus. Um menino muito branco, 17 anos, cabelos rastafari louros quase cinza, me olhou demoradamente; desviei o olhar umas quatro, cinco vezes e ele permanecia com os olhos pousados sobre mim. Atravessei o vagão e me sentei bem ao fundo, de costas para o menino. Pensei: O que Tiago quer? Começava a escurecer e eu estava com muita vontade de comer x-bacon. Desci duas estações antes da minha casa. O porteiro não quis interfonar. Antes de bater na porta fiquei tentando distinguir o cheiro: incenso de morango ou maçã? Tiago abriu a porta e riu, os olhos vermelhos iguais aos meus.

- E aí, mano?

- Fui ver uma exposição de retratos. Dina Sfat!

- Quem?

- Dina Sfat.

- Sua amiga?

Peguei o cigarro da mão dele:


- Tem mais?



Escrito por Luis às 15h03
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