Luís Antônio
  

flamcoelho's photo from 05/15/07

MASTIGUE BEM OS ALIMENTOS

 

Anderson disse que tinha parado e, de repente, numa tarde de muitas nuvens escuras, me aparece com uma trouxinha, olhos afundados em orlas roxas, a boca quase branca. Só cinqüenta pratas, argumentou, é a melhor que eu já provei. O preço de sete refeições, pensei. Mas não se discute com criaturas assim, neste estado; não se discute, foge-se. Ás vezes é esquivando-se que se vence, como se diz. Pálpebras forçadamente acesas. Entendi tudo. Aquela trouxinha valia no máximo dez pratas, vinte, se a qualidade ultrapassasse as históricas da minha vida passada. Mas ele precisava prestar contas de algo já consumido e vinha pedir socorro à mim. Me encher o saco, melhor dizendo. Estava agitado. Tive vontade de lhe dar um cascudo, fundo, na moleira, com os nós dos dedos bem acentuados, para ele parar um minuto. Tremia. Ou não tremia, balançava. Sei lá. Despejou o conteúdo da trouxinha sobre a mesa e começou a enrolar um longo cigarro. Então? - parou, olhar de predador - Você tem, não tem? Tinha. Mas não disse nada. Tentei argumentar. Ele não deixou, voou no meu braço, encostou o rosto muito próximo ao meu, hálito quente, fogo-fumaça, qualquer folha queimada verde. Tem, não tem? E segurava meu braço entre a força esmagadora do desespero e a carícia dos que se vendem por necessidade. Olhei direto nos olhos dele pela primeira vez, fixos em mim. Só então percebi, eram verdes. Mas uma esmeralda muito apagada, coberta por terra, algo marrom. Afirmei, contrariado, que sim. Ele sorriu por um lado só da boca. O rosto veio vindo e pude sentir sua boca branca. Ele encostou seu rosto no meu, bochecha com bochecha e me deu uns tapinhas nas costas. Voltou à mesa. Você não vai se arrepender, de costas para mim, é o melhor. Liguei o som. O sorriso do gato de Alice. Ele embalou aquele cigarro com precisão cirúrgica, hábil. Saiu caminhando ao som da música, passos alegres. Afastou bem as cortinas, abriu a janela confirmando se não era possível abrir um pouco mais e sentou-se no chão. Tem isqueiro? - gritou. Trouxe uma caixa de fósforos e me sentei junto dele. E o chequinho? - taxativo - Já pode me dar agora? Levantei, fui até o quarto, voltei. Ele conferiu as notas, ligeiro, enfiou no bolso. Levou o cigarro até a boca, riscou um fósforo e me olhou. Posso? Respondi que sim. Ou você prefere sozinho? Não, respondi, melhor acompanhado. Ele tragou. Puxou fundo e soltou. Três vezes, conferindo sempre se não havia apagado. Me estendeu a mão. Fiz o mesmo. Traguei. Acendi um incenso perto da janela e outro no meio da casa. Morango.  Terceira faixa do CD, uma das que mais gosto. Aumentei o volume. Elis Regina? Gal, respondi, íntimo dela. Longo silêncio, cortado apenas pelo expedir dos tragos. Minha mãe não me quer mais em casa - ele começou, do nada. Me disse isso ontem, com todas as letras. Saiu o resultado da porra do vestibular. Levei bomba. Ela ficou puta. Me mandou juntar os panos de bunda e dar o fora. E você? Ando por aí. O problema é de noite. A gente tem que dormir e isso é uma droga, sabe?, na rua. Mas eu dou um jeito. Sempre se dá um jeito, não é? Sempre, respondi, sempre se dá. E quis dizer um monte de palavras bonitas, de conforto, ser solidário, pedir permissão para ajudá-lo, oferecer a casa, comida, coisa e tal. Algo do tipo: Aí, irmão, esquenta com essa história da tua velha, não. Vem pra cá, pô! Mas. Você já deu o cu? Ele me olhou petrificado, tive um pouco de medo, não sei exatamente do quê, mas tive medo, meu coração disparou e senti a palma das mãos umedecidas. Então ele caiu na gargalhada. Aos poucos comecei a rir também, ressabiado, imaginando que ele fosse parar a qualquer instante e me dar uns tapões. Ou dizer qualquer palavrão. Ele não parou de rir, no entanto, riu até chorar. Eu, sem perceber, estava chorando de dar risada também. Sem motivo aparente. Ria. Só. Ríamos. Os dois. Ríamos com força sonora e física. O baseado estava no fim. Ele levantou-se meio astronauta na nave espacial. Caminhou até a porta. Eu o segui. Girou a chave. Valeu! - foi saindo e eu acompanhando com os olhos seus passos, pelo corredor. De repente, antes de entrar no elevador, ele retornou um terço do caminho. Olha, me disse, nunca, viu?, nunca. Mas tenho vontade! Eu corri à janela e o vi mudar de calçada e desaparecer na esquina. Dorme na rua, pensei. Em qual rua?

 



Escrito por Luis às 13h15
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