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A atriz Audrey Tautou no filme O Fabuloso destino de Amélie Poulain
do diretor Jean-Pierre Jeunet
FEIJÃO
"O sertão é uma espera enorme"
João Guimarães Rosa
Lavava os pratos do almoço. Nu da cintura pra cima, Sansão entrou na cozinha exibindo a barriga dilatada pelos dois pratos, cheios, de feijão. Parece gestante com seis meses, riu a mulher. Cantarolava uma cantiga qualquer, um xote, enquanto lavava os pratos. Estava contente, três dias sem colocar nada na boca. Orácio não queria, Elza escanchou o caçula nos quartos e foi pra estrada pedir carona. Lúcia atrás, satisfeita, ia enfim conhecer a cidade. Não há um mal que não traga um bem, escutou isso de alguém. Agarrou-a por trás, acariciou-lhe os seios e chupou-lhe o pescoço. Advertiu-a de que não adiantava correr ou gritar, ninguém a acudiria, ninguém a ouviria, Elza tinha ido à casa da irmã. Que a largasse, que a deixasse em paz. O que queria dela? Tinha só treze anos. Lançou-a ao chão da cozinha, ela reagia, tentava desvincilhar-se dos braços dele, debalde. Começou a chorar, imaginava que fosse morrer, que era essa a inteção dele, matá-la. Suplicava. Estava machucando-a, que saísse de cima dela, que parasse com aquilo. Mãe, pedia socorro. Elza jamais a ouviria, fora levar um prato de feijão à irmã. Levara o caçula. Estavam sozinhos os dois. Que ficasse quieta, que parasse de chamar pela mãe. Uma bofetada. Saia erguida, pernas afastadas. Os pequenos seios, em formação ainda, nus; sugados, umedecidos pela saliva quente de Orácio. Mãe, o socorro suplicante. Outra bofetada. Não havia escutado? Elza não estava em casa, tinha ido levar um prato de feijão pra irmã, lá também estavam três dias sem comer. Elza tinha conseguido feijão e farinha na cidade, batera numa porta e suplicara mostrando o caçula no colo. Elza dividira o resto do feijão cozido em duas partes, uma pra comerem no dia seguinte, outra pra irmã. Maria do Socorro ficaria satisfeita, as crianças mais ainda. Mãe, insistia. Um puchão de cabelo. Uma queixa de dor. Uma bofetada. Uma lágrima, seguida de outras. Com o dedo na boca, o caçula assistia à cena meio assustado com a violência sofrida pela irmã, paralisado à porta da cozinha. Orácio, calças abaixadas, nádegas à mostra, rosto umedecido pelo suor, soltava grunhidos abafados de prazer ignorando a presença do pequeno observador. Tapas. Prazer. Dor. Agressão. Mãe, o socorro esperado. Uma nova bofetada. Uma nova lágrima. Um cala boca. Um sangramento. Na face, uma escoriação. Entre as pernas, um pequeno sangramento. Um susto. O medo da morte. O que era aquilo? Assistia a saída de Orácio de sobre seu corpo, exausto, imóvel.
  
Escrito por Luis às 23h49
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Ele ergueu as calças, abotoou a braguilha, olhou-a com ira e asco. Levanta, ordenou. Sentia-se muito cansada, como se o teto houvesse-lhe desabado sobre o corpo. E dores. Doía-lhe tudo, os cabelos eram a exceção da regra. Maldito. Por que fizera aquilo com ela? Miserável. Seu rosto estava marcado por aquelas unhas imundas que ele nunca cortava ou limpava. E havia sangrado, tinha-lhe saído sangue do meio das pernas. Com o que ele havia entranhado-lhe, teve a curiosidade. Teve vontade de rir da inocência, mas sabia. Nunca tinha visto um homem despido, exceto o irmão, mas o irmão era uma criança, quatro anos apenas. Homem, homem de verdade, com barba na cara, ela nunca viu, só vestido. Burra, desabafou. Quis revidar, pensou em jumento, mas se ele havia-lhe feito sangue no corpo, podia também matá-la, e não queria morrer. Aquietou-se. Ficou de pé com dificuldade, doía-lhe o corpo; as cãimbras nas pernas. Passou a mão na coxa, fitou os dedos molhados, assustou-se mais ainda. O sangue disparou-lhe pelo corpo, sentiu-o reunido na face. Olhou para a faca sobre a pia, a velha peixeira do seu pai. Ah, seu pai! Quanta saudade! Se estivesse vivo nada daquilo estaria acontecendo, lembrava-se todos os dias dos carinhos dele. A peixeira era amolada. Quis pegá-la, atravessar a barriga gorda de Orácio. A coragem faltou-lhe, porém. Olhou outra vez para os dedos, o coração queria saltar-lhe fora. Porca, esbravejou. Não sentia nojo de si, mas dele. Não via-se porca, quem a sujara não tinha sido ela. Vá se lavar, ordenou, no açude. Na lama do açude, ele queria dizer. Estava quase seco, coitado. Há mais de um ano que não chovia, sol direto, até de noite era quente, um forno - reclamava a mãe. E as muriçocas? Uma praga. Uma verdadeira praga. E Orácio ainda brincava: como é que você chama muriçoca, Dido? Muliçoca, respondia, inocente. Pois eu não chamo, não. Elas vêm sozinhas. Elza queimava as fezes do gado, espantava não. Só algumas. Tinha dia que Lucia chorava, a mãe crente de que era por causa da fumaça forte. Também. Muriçoca e fumaça forte. Um inferno. A mãe andava até légua e meia atrás de fezes de gado. Orácio tinha três cabeças de gado, vendeu os pobrezinhos, já caindo de fome. A novilha de Lucia estava amojada. Uma pena. Lucia chorou o dia todo. O dia todo de olho inchado por causa de Pintada. Orácio se irritou com aquela choradeira: vendi pra comprar feijão e farinha pra tu encher esse teu bucho. Lucia se escondeu no meio do mato, não conseguia controlar o choro. Orácio era muito bravo, zangado. Sempre teve muito medo de Orácio, da mão calejada e grossa. Desde que ele se casara com Elza que tinha medo dele, Lucia tinha quatro anos. Disse uma mal criação uma vez porque ele a empurrou. Sua orelha, quase fica sem. Orácio era mal, violento. Não gostava de Orácio. Vivia sempre longe dele. Tinha medo de que ele lhe batesse. Gostava de puxar-lhe os cabelos, e doía, por pouco não se despregavam do casco. Urubu! Orácio era um urubu, gostava de se aproveitar da desgraça alheia, ficava feliz com o sofrimento dos outros. Ou só com o sofrimento dela. A mãe saiu sem avisá-la. Se soubesse teria ido junto. Não ficava só em casa com Orácio nem que lhe dessem um pacote intacto daqueles biscoitos de chocolate que vira uma menina comendo na cidade, quando fora à cidade com a mãe que ia pedir uma caridade na porta dos ricos. Elza terminou de engolir o feijão e saiu pra casa da irmã, quase correndo, e o caçula atrás. A terra parecia ser feita de fogo, queimava. Dido não agüentou, a mãe tinha a sola dos pés encaliçados, os seus ainda eram fininhos. Voltou pra casa na metade do caminho. Lucia saiu à caminho do açude, pensou: se estivesse cheio mergulhava e não saía mais lá de dentro. Tinha um nó na garganta, um desgosto da vida. Orácio tomou um susto quando viu o filho parado olhando-o, babando no polegar. O que fazia ali, quis saber. Já tinham voltado, ele e a mãe? O menino explicou. Não tinha agüentado a terra, estava pegando fogo. Recebeu um croque na moleira, pra aprendeder a não ficar parado no meio da casa, espiando. O nó dos dedos do pai eram duros, tinha doído. Saiu chorando.
Fotos: Sebastião Salgado
Escrito por Luis às 23h41
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