Luís Antônio
  

cena do filme The Hours - drama de Stephen Daldry

 

Estudo sobre o conto

A Estrutura da bolha de sabão

de Lygia Fagundes Telles

 

É quando esqueço que me lembro.

É quando não dou notícia do poema

que ele chega,

me bate a porta com raiva,

com o furor que só a poesia tem

e eu de calça curta, me sento,

baixo a cabeça, ouço, obedeço, escrevo.

O poema entra se esvaindo.

Sai e nem percebo que ele se foi,

mas ele fica, algo dele fica

e minha memória emotiva

sabe que algo ficou.

Às vezes é durante o banho,

a refeição, o sexo.

Outras vezes é na fila do supermercado,

dentro do ônibus, debaixo de um temporal.

Até dormindo.

Em alguns momentos o poema me sacode,

me acorda, me põe de pé e a ouví-lo.

Pura servidão.

 

cena do filme Billy Elliot – drama do mesmo diretor



Escrito por Luis às 11h20
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Cena do filme "Gritos e Sussurros"

 

Mulheres que amam mulheres

 

para todos os admiradores de Ingmar Bergman

(Trecho de uma peça)

- Eu queria me chamar Agnes.
- Por quê?
- (Suspira fundo. Sonha) Porque... Agnes...
- Eu queria me chamar Maria.
- Mas teu nome é Maria Lúcia!
- Maria Lúcia. Eu queria me chamar Maria. Apenas Maria. Tão bonito. Simples. É delicado, é pequeno. Singelo. Parece frágil, mas não é frágil. Também não é o lobo travestido de cordeiro.
- A loba.
- É como se eu pudesse pegar com minhas mãos. É romântico também.
- O nome Maria me remete à água. Mas não a àgua do mar, a água dos riachos.
- Loba?
- Agnes me faz lembrar da primavera. É a única estação que vale a pena. O inverno é frio e o verão é quente. A primavera é bonita e sua boca é um botão de rosa que fala uma única palavra.
- E o outono?
- Beleza.
- Mas e o outono?
- O outono... Ele... Minha avó se chamava Maria. Apenas Maria. Usava vestidos tão bonitos. Tão simples. Floridos. Nunca vestiu calças.
- E a estória da loba?
- Maria era uma loba. Teve seis filhos, todos homens, ficou viúva, não se casou de novo, trabalhou muitos anos como cozinheira de uma família riquíssima, até comprar um boteco, até comprar um bar, ela dizia "bar", "eu comprei um bar, menino, não foi um botequim". Fez história esse bar. Formou os seis filhos. Três são médicos. Meu pai é médico.
- E você, trapezista?
- O circo é a mola propulsora da minha vida. Só sei assim.
- Agnes...
- É herança da minha outra avó. Está no sangue. Todos negam a lembrança dela. Não adianta. O preconceito nos empurra mais cedo para o abismo. Para a cova. Por que causar sofrimento aos outros se a caminhada de todos vai dar no mesmo lugar? Já que caminhamos para o mesmo destino, então vamos nos dar as mãos.
- Eu não entendo o preconceito.
- Primeiro reconhecemos que somos preconceituosos, depois lutamos contra isto.
- Maria passeia por um jardim bem grande e o som dos passarinhos a limpa de toda impureza. Ela não tem tempo para ver televisão.
- Maria vive sua vida e deixa que os outros vivam suas vidas.
- Agnes é fogo.
- E terra.
- Anges queimou o bico dos peitos para lutar com mais força por seus ideais. Por uma causa só dela.
- Nenhuma causa é só nossa. De uma forma ou de outra, mais alguém é favorecido com as nossas conquistas. Mesmo que não saibamos o nome, a cor do rosto ou se mora em Santos ou São Francisco.
- Em São Francisco, os homossexuais não sabem o que significa homossexuais.
- Agnes teve uma experiência homossexual.
- Uma experiência com outra mulher.
- Foi tudo muito rápido e bom.
- Agnes é generosa como a terra.
- As guerreiras amazônicas eram lésbicas?
- Maria é casada. Ele se chama Isaías e todas as noites faz amor com ela, não goza antes dela, ejacula na sua barriga porque não usa preservativo. Isaías é fiel. Maria o trai, todos os dias, em pensamento. O farmacêutico da alameda 13 de Maio tem olhos de um castanho-mel que Maria reza de joelhos e olhos fechados. Maria sofre porque existe uma oração que diz "não nos deixai cair em tentação" e porque um dos mandamentos é não cometer adultério. Maria é católica. Tem um terço tão bonito, feito todo ele em madeira. Leu não sabe quantas vezes o livro de Rute. Rute e Naomi. Maria olha com contemplação aquela amizade. E canta debaixo do chuveiro os hinos da missa. Sabe muitos. Maria tem uma inveja das mulheres que têm seus amantes e não morrem de remorso por conta disso. Ela confessa todos os seus pensamentos para o padre e é recriminada e reza. Sua reza é bonita, mas depois. As horas.
- As horas de Virginia Woolf.
- Pois é.
- Agnes. Minha filha não vai se chamar Anges de jeito nenhum.
- É. Não vai. Ela não pode escolher.
- Se eu pudesse escolher...
- Se a gente pudesse escolher, na barriga de nossas mães, o nome seria a escolha mais insignificante, se a gente pudesse escolher o que nos diz respeito.
- Pois é... Maria...
- Anges...
- Me fale mais da sua filha!
- Minha filha? Bem, ainda não sei seu nome...
- Não, ainda. Que tal Maria?

 



Escrito por Luis às 01h13
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