Luís Antônio
  

Ele

 

(para ler ao som de jazz)

 

            Ela saiu da faculdade sonolenta. De cabeça baixa, bocejava no seu caminhar apressado. Tinha a pele clara, olhos castanhos e longos cabelos, negros como a noite. Usava tênis branco, calça jeans, e uma blusa com o símbolo da Universidade na qual cursava medicina. Seria pediatra, adorava crianças.

            No caminho para sua casa, ela encontrou um velhote que amedrontou-a. Poucos minutos depois, percebeu que estava sendo seguida. Pasma, olhou para trás. Nada viu. Continuou a andar. Sua pressa era tamanha que transpirava sem parar. Estava veloz. Começou a ouvir pisadas, havia alguém atrás dela, seguindo-a como se fosse sua sombra. Apavorada, não ousou olhar para trás novamente. Prosseguiu no seu caminho, desta vez mais apressada ainda. Percebeu que as pisadas de quem a seguia ficaram tão rápidas como as suas. O seu coração estava na boca. Ela já não caminhava mais, corria apressada, temendo o pior. Queria chegar à sua casa o quanto antes. E viva.

            De repente, ela parou de ouvir as pisadas de quem a seguia. Ao entrar na rua onde ficava sua casa, esbarrou num homem. O impacto foi violento, ela foi ao chão. Encarou com profundo pavor aquela criatura, que diante dela caída parecia enorme. Tratava-se do velhote que há pouco tinha visto. Educadamente ajudou-a a se levantar e pediu desculpas profundamente aborrecido com o que havia feito. Portou-se como um distinto cavalheiro. Ela não parou de tremer um só instante, nem tão pouco de temer as intenções do velhote. Suas mãos frias, quase geladas, tocaram as mãos quentes e grandes do velhote, quando ele ajudou-a a levantar-se.

            Ele aparentava ter pouco mais de sessenta anos. Era alto, forte e muito simpático. Tinha cabelos grisalhos e olhos pretos. Bastante falador, um verdadeiro tagarela, tinha uma conversa envolvente e um olhar profundo. Via-se nele, um olhar feiticeiro e meio traiçoeiro. Disse para a jovem que a conhecia, viu-a nascer. Foi amigo do pai dela e vizinho deles, porém isso acontecera há muitos anos, ela não se lembrava, era só uma garotinha. Ela ainda não havia se recuperado do susto que sofrera e não confiava nas boas intenções daquele homem. Temia que aquilo fosse uma armadilha, que estivesse sendo enganada. Procurando uma maneira de se livrar daquele homem sem ser mal educada, viu no pulso dele um relógio e perguntou-lhe a hora. Meia-noite, respondeu. A jovem então despediu-se, alegando ser muito tarde e que ela precisava dormir, pois acordaria cedo para fazer alguns trabalhos da faculdade. O velhote ofereceu sua companhia até a casa da jovem, que dispensou-o educadamente e saiu apressada.

Escrito por Luis às 03h00
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            Trêmula, a jovem abriu a porta e entrou finalmente em casa. Em seu quarto, a primeira coisa que fez foi rezar. Rezou durante meia hora para agradecer a Deus o fato de estar em casa, sã, salva e segura. Em seguida foi tomar um banho. Enquanto banhava-se escutou uma forte pancada que alguém dava perto dali. Saiu do banheiro enrolada por uma toalha, pegou uma faca na cozinha e segurando-a, percorreu toda a casa. Nada encontrou. Voltou ao seu quarto, vestiu uma camisola e foi dormir. Ela já cochilava quando outra pancada fortíssima assustou-a novamente. Desta vez distinguiu de onde vinha a pancada. Vinha da porta de entrada da casa, alguém tentava derrubá-la. E estava conseguindo. Ela não conseguia se mover, o medo adormecera suas pernas e todo o seu corpo. De repente passou a escutar pisadas fortes dentro de casa, vinham da sala para o quarto. Ela baixou a cabeça, fechou os olhos e começou a rezar. Seu coração saltava acelerado. Seu corpo tremia todo. Ela suava frio.

            A porta do seu quarto foi aberta, bem devagar. A jovem olhava aquilo petrificada. Não conseguiu identificar o individuo, tudo estava muito escuro. Ele falou de mansinho que ela não precisava se assustar, tinha algo para ela. E cada vez mais ia aproximando-se da cama onde ela estava. Ele não parava de falar. Ela não poderia dizer algo nem se quisesse. Sua língua estava pesada, parecia maior que a boca e os lábios, cerrados pelo medo. Ela só tremia, apavorada.

            Aquela voz era-lhe familiar. Mas claro! Como ela não a reconheceu antes? Era a voz dele. Sim, dele. Era ele, o velhote. Maldito! Falava sem parar, numa tagarelice absurda. E já estava ao pé da cama da jovem quando esta gritou desesperada. Ela saltou da cama e trancou-se no banheiro. Atirou-se ao chão, chorosa. À porta do banheiro, que ela fechara à chave, ele continuava falando sem parar. Acalmava-a. Dizia que só havia vindo trazer uma caneta que ela deixara cair quando eles se esbarraram na rua. Ela não conseguia enxergar boas intenções na atitude e no falatório daquele homem. Emudecida, só chorava.

            Depois de pedir, insistentemente para que ela saísse do banheiro, pois só queria entregar-lhe a caneta, ele, concluindo que seria embalde insistir, prometeu ir embora. Ainda assustada, a jovem ouvia as pisadas do velhote, que parecia estar indo embora realmente. Porém ela não confiava naquele homem. Não saiu do banheiro. Ficou lá toda a noite. Adormeceu, dormiu e foi acordada pelos vizinhos. Metade de sua sala havia sido roubada.

Fotografía de Billie Holiday

A MAIOR

Billie Holiday inovou o jazz vocal carregando-o de sentimento.



Escrito por Luis às 02h59
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